PAVLOV, GATOS E EVOLUÇÃO
-Sidney Fernandes
Em magnífico trabalho denominado Cérebro - Agente ou Gerente do Espírito?, Richard Simonetti faz referência ao reflexo condicionado como parte do processo evolutivo da alma.
Dirigindo-se aos contestadores da reencarnação, que a consideram inútil por não nos recordarmos do passado, argumenta que a ausência de lembranças de vidas anteriores não impede nosso aprimoramento na vida atual.
Espírito que no passado abusou do sexo - exemplifica - nesta vida terá depressão, frigidez sexual, esterilidade ou doenças relacionadas com seus órgãos de reprodução. Com o sofrimento, o Espírito vai aprender, por reflexo condicionado, que a promiscuidade sexual não é interessante. Vai reexaminar seus procedimentos.
Mesmo sem se lembrar dos erros cometidos em outras vidas, o indivíduo que sofre tem a intuição de que as dores desta vida têm uma causa justa.
Ocorre algo semelhante àquele machista ditado que diz:
mulher de malandro não sabe por que está apanhando, mas sabe que merece.
O papel do condicionamento na psicologia do comportamento (reflexo condicionado) foi estudado pelo fisiólogo russo Ivan Petrovich Pavlov.
É clássica a história do cão que, acostumado a ouvir uma sineta antes de suas refeições, salivava toda vez que ouvia tal som, independentemente de sua ração ser servida ou não.
Pavlov descobriu que algumas respostas comportamentais são inatas, enquanto outras podem ser aprendidas, criadas ou removidas, em seres humanos e animais.
A expressão gato escaldado tem medo de água fria mostra bem como nosso comportamento muda quando passamos por uma situação traumatizante.
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A esse respeito há uma curiosa história contada por Simonetti:
Um sacristão não gostava de gatos. Mas, não conseguia se livrar deles, porque o padre os considerava criaturas de Deus.
Engendrou um plano. Toda vez que ia alimentá-los, usava a expressão: “— Deus seja louvado", acompanhada de chibatadas que os punha a correr.
Quando os bichanos estavam bem condicionados, escondeu as chibatas e chamou o padre: "— Senhor padre, precisamos nos livrar desses gatos. Eles têm parte com o diabo."
Diante da incredulidade do padre, desta vez sem usar os chicotes, reuniu os gatos e passou a gritar: "— Deus seja louvado."
É claro que os gatinhos fugiram espavoridos, convencendo o sacerdote de que eles realmente abominavam o nome de Deus.
Reflexo condicionado de Pavlov!
A dor oriunda dos desvios morais e espirituais sinaliza a necessidade de mudança de comportamento do indivíduo. Ela nos relembra, a fim de não repetirmos os mesmos erros do passado.
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A conservação da ordem social também passa pelo mesmo princípio enunciado por Pavlov.
Através do direito que tem de punir, quando surge o delito, o Estado pretende evitar novos crimes através da psicologia do comportamento.
Em resumo, seria a conclusão lógica de uma coleção de premissas:
1) fulano foi punido por cometer determinado crime;
2) se eu cometer o mesmo crime, também poderei ser punido;
3) conclusão: o Estado espera que os demais cidadãos não cometam o mesmo crime.
E é esse caminho que o ius puniendi (o direito que o Estado tem de punir) tem alcançado? Ameaçar com a pena, aplicá-la e executá-la tem alcançado seus objetivos?
Recentes estudos e pesquisas realizados por especialistas penais dão conta de que a psicologia de comportamento do candidato ao crime mudou.
Partindo das dificuldades que o Estado tem para elucidar crimes, deter o criminoso, aplicar-lhe as penas devidas e executálas - o que geralmente é abrandado por penas alternativas ou reduções -, o indivíduo estaria fazendo mentalmente um balanço de custo/benefício e estaria chegando a uma triste conclusão social: o crime compensa!
A esse respeito, vale a pena lembrar a história de um homem que, chegando a um posto para abastecer seu carro, viu um cão deitado sobre uma tábua, gemendo.
— O que tem esse cão? - perguntou ao frentista.
— Sabe doutor, ele está deitado em cima de um prego, por isso geme...
— Ué, porque ele não se levanta dali?
Com simplicidade, mas ao mesmo tempo com sabedoria, o frentista respondeu:
— É que não está doendo o suficiente...
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Quando voltamos à espiritualidade, conservamos a lembrança e a percepção da vida corpórea. Sofremos novamente os males padecidos em vida e os infligidos aos outros.
Daí, naturalmente, nos preparativos para uma nova encarnação, colocamos nossas barbas de molho, para que essas experiências infelizes não se repitam ou, pelo menos, que sejam minimizadas.
A nosso pedido, são criados dispositivos preventivos, para não repetirmos os erros anteriores. Assim, surgem deficiências físicas, neuroses, medos e aversões, que nos alertam quando relaxamos ou nos esquecemos dos compromissos assumidos.
É o reflexo condicionado de Pavlov funcionando a nosso favor, numa autêntica vivência do ditado cachorro mordido por cobra tem medo de linguiça.
Mesmo com o abençoado esquecimento que alivia o passado de culpas, sabemos, sem entender exatamente por que, que determinadas atitudes ou ações devem ser evitadas.
É claro que o melhor caminho é o da educação. Mas, da mesma forma que fazemos com crianças – e espiritualmente ainda somos como elas – na metáfora da pipa, a espiritualidade ora aperta, ora solta a corda das nossas ações. Assim, preserva-se o livre-arbítrio do Espírito encarnado e, ao mesmo, imprime-se uma espécie de liberdade vigiada, para que não se percam seus objetivos evolutivos.
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Talvez o reflexo condicionado de Pavlov ainda não esteja funcionando na justiça da Terra, porquanto sujeita às imperfeições humanas. A justiça divina, no entanto, é indefectível. E o despertar evolutivo do Espírito, ainda que tarde por sua inércia, jamais falha.