Uma cachorrinha muito especial -Sidney Fernandes

Uma cachorrinha muito especial
Sidney Fernandes


Mafalda não sabia mais o que fazer com sua filha Luciana, que estava perdidamente apaixonada por Mário. A mãe prestimosa sentia que o rapaz não era pessoa confiável, nem tinha profissão definida. Embora não considerasse a posição social ou a situação financeira como condições absolutas para a felicidade de uma pessoa, temia que a filha se desiludisse em pouco tempo e, pior, passasse a sofrer privações materiais, o que no lar materno não aconteciam.
Por outro lado, Mafalda tinha perfeita consciência de que, às  vezes, os planejamentos da espiritualidade destoam dos ideais reconizados pelos homens.
— Será que Luciana tem algum compromisso espiritual com Mário? — pensava.
Ela já havia lido, em obras espíritas, que não raramente filhos precisam de condições mais severas de vida, para rever procedimentos negativos do pretérito. Pesava-lhe a dúvida de que, com suas implicâncias, talvez estivesse poupando a filha de necessários corretivos, adrede planejados, antes de sua atual encarnação. Isso se ela tivesse realmente razão com relação à conduta do namorado de Luciana.
Esqueci de lhe contar, caro leitor, que além do amor da sua vida, que ela considerava ser Mário, Luciana tinha outro amor:
Xuxinha, cachorrinha filhote de maltês, de pequeno porte, que só faltava falar. Companhia inseparável, Xuxinha era a salvação da jovem, nas tardes de domingo em que Mário saía com os amigos e a deixava só. Era Xuxinha sua companhia, quando, inexplicavelmente, o namorado sumia, dizendo que iria em busca de trabalho, que nunca encontrava.
Coração de mãe, no entanto, não descansa enquanto os filhos não estejam bem encaminhados. E foi assim que Mafalda passou a orar com veemência, buscando a ajuda de seus mentores maiores.
Se fosse melhor para a filha — orava resignadamente Mafalda —, que ela fosse feliz ao lado do traste que havia encontrado. Se, todavia, ela estivesse desviada da sua verdadeira trajetória espiritual, que a espiritualidade interviesse, antes que fosse tarde demais.
E foi assim que uma inesperada tragédia aconteceu. Um pet shop enganou-se na dosagem de inseticida e Xuxinha partiu desta para melhor: morreu! Luciana se viu perdida num mar de emoções.
E foi nessa hora que Mário se revelou, mostrando sua falta de sensibilidade. Abandonou a namorada, deixando-a com suas lágrimas inconsoláveis.
— Eu, hein — justificava-se Mário —, ficar pajeando uma mãe de cachorrinha desconsolada? Vou cuidar da minha vida.
Inteligente, mesmo afogada em seus sentimentos pela perda da cachorrinha, Luciana logo raciocinou que, se enquanto solteiros ela não poderia contar com Mário, muito menos depois de casados, em situações mais graves.
Foi quando surgiu Alexandre. O colega de trabalho de Luciana estava esperando uma oportunidade para demonstrar sua admiração por ela. O rapaz, espertamente, apareceu, no momento mais crítico da mágoa da moça, portando uma gêmea de Xuxinha.
Era, sem tirar nem pôr, a reencarnação da sua cachorrinha querida.
Aliás, faça-se justiça, a nova Xuxinha — que, como se vê, recebeu o mesmo nome de sua antecessora — parecia já conhecer os hábitos e a casa de Luciana. E mais, Alexandre revelou-se o apoio fundamental, para que Luciana superasse aquela crise.
Hoje — pois estes relatos datam de alguns anos atrás — Luciana está casada — e muito bem casada, conforme atesta sua mãe —, morando em casa espetacular, já tendo viajado várias vezes para o exterior. E o principal: Alexandre, além de ajuizado, colocou Luciana na linha, levando-a de volta à religião, que ela havia abandonado por causa de Mário. Graças às veementes orações da mãe, Luciana encontrou seu verdadeiro príncipe encantado.
Discreta, Mafalda jamais revelou o conteúdo de suas orações para ninguém. Até que um indiscreto espírito contou toda a história, em psicografia espontaneamente recebida no centro espírita que frequenta, a qual, sinteticamente, aqui reproduzo:
— Não havia outra maneira de abrir os olhos de sua filha, Mafalda, se não aproveitássemos o acidente com a cachorrinha.
Não fomos os responsáveis pela morte do animal, apenas nos valemos da circunstância.
Foi nesse momento que Mafalda entendeu como às vezes age a espiritualidade maior, quando nós, homens precisamos de sua  interferência. O problema é que não entendemos bem o modus operandi dos espíritos, e nos desesperamos, em nossa tediosa, insípida e medíocre falta de fé.
***
A intercessão da prestimosa mãe salvou a filha. Espíritos protetores, que haviam se afastado de Luciana quando viram que eram inúteis seus conselhos, voltaram, ao chamado da genitora.
Agiram rápida e eficientemente, reconduzindo a moça para sua verdadeira trajetória de vida.
Ocorre que nós pensamos, muitas vezes, que nossas preces não foram atendidas, quando, na verdade, os anjos de guarda agiram diferentemente do que esperávamos, e tão discretamente, que nem percebemos. Confiemos sempre!