Uma Mágoa não é motivo para outra Mágoa - Sidney Fernandes


UMA MÁGOA NÃO É MOTIVO PARA OUTRA MÁGOA
Sidney Fernandes

Um padre mandou Chico Xavier para o inferno. Naquela época, informa Ramiro Gama (1), em 1931, isso era ofensa muito grave. Chico, frequentador da igreja desde a infância, ficou muito magoado. À noite, na reunião mediúnica, desabafou com sua mãe, já desencarnada:
— O padre me xingou muito... Imagine que ele me mandou para o inferno...
— Que tem isso? Cada pessoa fala daquilo que tem ou sabe
— respondeu o Espírito. — Ele mandou você para o inferno, mas você não vai. Fique na Terra mesmo.
O médium, diante do bom humor daquelas palavras, compreendeu que não convinha dar ouvidos às condenações descabidas. E o serviço da noite desdobrou-se em paz.
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Não seria o caso de atentarmos para esta expressão de Jesus — Quem matou com a espada, pela espada perecerá — citada por Allan Kardec na questão 764, de O Livro dos Espíritos?
— Estas palavras não consagram a pena de talião e, assim, a morte dada ao assassino não constitui uma aplicação dessa pena?
Respondem os Espíritos:
— Tomai cuidado! Muito vos tendes enganado a respeito dessas palavras, como acerca de outras. A pena de talião é a  justiça de Deus. É Deus quem a aplica. Todos vós sofreis essa pena a cada instante, pois que sois punidos naquilo em que haveis pecado, nesta existência ou em outra. Aquele que foi causa

 - Lindos casos de Chico Xavier, de Ramiro Gama.
do sofrimento para seus semelhantes virá a achar-se numa condição em que sofrerá o que tenha feito sofrer.
Este o sentido das palavras de Jesus. Mas, não vos disse ele também:
“Perdoai aos vossos inimigos”?
E não vos ensinou a pedir a Deus que vos perdoe as ofensas como houverdes vós mesmos perdoado, isto é, na mesma proporção em que houverdes perdoado, compreendei-o bem?
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Melhor também atentarmos para outra expressão evangélica:
— Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal que vos queiram fazer; que se alguém vos bater na face direita, lhe apresenteis também a outra.
Mateus, 5:39
Oferecer a outra face ao agressor, à época de Jesus, já seria uma insanidade. O mesmo aconteceria nos tempos atuais. Como bem interpreta Allan Kardec, da mesma forma que não devemos levar ao pé da letra o preceito que manda arrancar o olho, se for causa de escândalo, aqui também devemos condenar a repressão, não deixar campo livre aos maus, pondo freio às suas agressões, sob pena de todos os bons se tornarem suas vítimas.
O que quis então dizer Jesus? De que forma poderemos seguir a orientação evangélica sem nos tornarmos vulneráveis ao mal?
Da mesma maneira que em inúmeras outras situações, o mestre divino mais uma vez nos convida à conciliação e a evitarmos a vingança, deixando que a vida cuide do ofensor.
Isso não significa, de jeito algum, que deixemos de nos proteger, sendo prudentes como as serpentes e inofensivos como as pombas (Mateus, 10:16). Na prática, entendo que devemos atentar para a orientação da página Em paz de consciência, que vou tentar resumir.
Diz Emmanuel, na psicografia de Chico Xavier, que em muitas ocasiões sobrecarregamos a mente de inquietações, com as quais nada temos a ver. Atraímos, imprudentemente, débitos dos outros e nos submetemos a forças destruidoras que são produzidas por esses companheiros de existência.
Estragamos muitos de nossos dias permitindo que aflições dos outros se ampliem e se transformem em instrumentos de obsessão, desarmonia, enfermidade ou até delinquência.
Quando esse tapa em nossa face direita nos ameaçar, diz Emmanuel que deveremos nos imunizar contra a absorção desses venenos mentais, de cuja formação não participamos.
— Por que perder tempo ou conturbar o coração se o problema pertence ao maldizente ou ao caluniador? — continua Emmanuel.
Se erramos, retifiquemos nossas faltas. Se, entretanto, estamos com a consciência tranquila, não passemos recibo em qualquer conta perturbadora que a injúria ou a maledicência nos apresente.
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Gostaria de encerrar esta nossa conversa entre tapas, perdão às ofensas e o vigoroso posicionamento de Emmanuel, com mais um caso de Chico Xavier, que sempre nos municiou com ensinamentos, fossem eles oriundos da espiritualidade, ou fossem extraídos de sua experiência pessoal, também relatado por Ramiro Gama (2).
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(2) Lindos casos de Chico Xavier, Ramiro Gama.

O caso da besta
Em 1931, quando o Chico passou a receber as primeiras poesias do PARNASO DE ALÉM-TÚMULO, um cavalheiro de Pedro Leopoldo, muito impressionado com os versos, resolveu apresentar o Médium e os poemas a certo escritor mineiro, de passagem pela cidade.
O filho de João Cândido vestiu a melhor roupa que possuía e, com a pasta de mensagens debaixo do braço, foi ao encontro marcado.
O conterrâneo do médium, embora católico romano, apresentou o Chico, entusiasmado:
— Este é o médium de quem lhe falei.
O escritor cumprimentou o rapaz e entregou-se à leitura dos versos.
Sonetos de Augusto dos Anjos, poemetos de Casimiro Cunha, quadras de João de Deus...
Depois de rápida leitura, o literato sentenciou:
— Isso tudo é bobagem.
E mirando o Chico, rematou:
— Este rapaz é uma besta.
— Mas, doutor — disse, agastado, o conterrâneo do Chico
—, o rapaz tem convicções e abraça o Espiritismo como Doutrina.
— Pois, então, deve ser uma besta espírita! — declarou o escritor.
Bastante desapontado, o médium despediu-se.
Em casa, durante a oração, a genitora apareceu.
— A senhora viu como fui insultado? — perguntou o Chico.
E porque Dona Maria se revelasse alheia ao assunto, o filho contou-lhe o caso.
A entidade sorriu e disse:
— Não vejo insulto algum. Creio até que você foi muito honrado. Uma besta é um animal de trabalho...
— Mas o homem me apelidou por besta espírita.
— Isso não tem importância. — exclamou a mãezinha desencarnada
— Imagine-se como sendo uma besta em serviço do Espiritismo. Se a besta não dá coices, converte-se num elemento valioso e útil.
Porque o filho silenciasse, Dona Maria acrescentou:
— Você não acha que é bem assim?
Chico refletiu e respondeu:
— É.... pensando bem, é isso mesmo.
E o assunto ficou sem alteração.
***
Diante dos tapas com que venham a nos ameaçar ou eventualmente nos atingir, lembremo-nos da essência destas palavras, atribuídas a Chico Xavier:
— uma mágoa não deve ser motivo para outra mágoa;
— uma lágrima não pode motivar outra lágrima; e
— uma dor não deve ser motivo para outra dor.
As únicas coisas que merecem qualquer tipo de retribuição são o riso, o amor e o prazer.
— O resto, mais que perda de tempo, é perda de vida!